Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A cultura da amabilidade

Quarta-feira, 24.02.10

 

Foi na cultura da amabilidade que eu pensei quando ouvi ontem, passados tantos anos, o professor Adriano Vaz Serra. Foi na Antena 1, à hora de almoço, e absolutamente por acaso.

Também isto me lembra a série Life on Mars, pois ao ouvir o professor viajei no tempo e às aulas da faculdade de Medicina de Coimbra. 29 anos já... Fomos a primeira turma do curso de Psicologia de Coimbra (1976/81). É certo que já o vi e ouvi em Congressos  e tenho lido artigos seus, mas não é a mesma coisa.

 

A voz, a entoação, a amabilidade. Como se estivesse a dar mais uma aula. Nas aulas também era assim, pelo menos na nossa turma: às vezes questionava-nos e às vezes ironizava discretamente. Trouxe-nos vídeos de casos que acompanhou e levou-nos ao cinema.  A mim sempre me pareceu um pouco british, no estilo e na forma de expor e comunicar, mas sem a afectação inglesa nem o snobismo. No final do curso, esteve presente no almoço com alguns dos outros professores, e assinou amavelmente as nossas fitas. Guardo ainda essas fitas em tom laranja (coincidências poéticas) no baú das memórias mais gratas. 

 

Agora ficamos a saber que abandonou as aulas, mas que vai continuar a dedicar-se à sua paixão de sempre: a psiquiatria. Tem sido convidado para diversos congressos, um será em Abril em Barcelos, sobre Stress, e outro depois em Outubro, mas não percebi onde.

 

Revelou algumas memórias de um percurso que se iniciou em 64, o que o levou a escolher essa especialidade, referiu professores que o marcaram, livros que leu, e experiências como a observação dos doentes internados. Mostrou os incríveis avanços em psiquiatria, a nível de técnicas e recursos terapêuticos. Que não tem nada a ver com esses tempos iniciais. Aliás, a descrição desses tratamentos lembrou-me precisamente um dos filmes que fomos ver na altura, A Laranja Mecânica, os famosos electro-choques.

E, felizmente segundo o professor, também mudou a perspectiva de doença mental, que já não tem aquele estigma de loucura.

 

Finalmente falou-nos do stress, a que se tem dedicado há alguns anos já, tendo elaborado uma escala precisa, fiável, que consta de 23 questões e detecta situações de risco.

Alertou ainda para as consequências graves do stress prolongado, a nível físico e psicológico.

Muitos órgãos, a começar pelo coração, começam a descompensar.

A nível psicológico, os principais efeitos revelam-se em ansiedade e ataques de pânico, fobia social, estados depressivos.

 

Nestas viagens no tempo esta foi uma das mais gratas memórias. Registei para sempre as suas aulas e uma delas, particularmente, em que nos provou de forma inequívoca que o que importa não é o que nos acontece, por mais traumático que seja, mas a forma como aprendemos a lidar com as situações. A sua perspectiva é a da corrente comportamental. É nos comportamentos que se pode intervir.

Embora nos tenha dito ontem, na Antena 1, que o trabalho do psiquiatra é como o do detective, tentar perceber o significado de determinado comportamento, a razão, o motivo, o que está por trás. É mais fácil detectar o que o despoleta, mas o significado oculto, até do próprio, é muito mais difícil e leva o seu tempo, mas é isso que o fascina.

 

Sim, é a sua cultura da amabilidade que me ficou. Foi um modelo para muitos jovens estudantes. E agora pode passar essa mensagem a outros níveis, ou noutros locais, mesmo na comunidade mais alargada e não necessariamente confinada à comunidade científica.

A cultura da amabilidade, nunca como agora tão necessária. No meio de agressividades, de grupos entrincheirados, vermos pessoas que cultivam a amabilidade como forma de comunicação, é uma lufada de ar fresco.

 

 

Também aqui: A cultura da amabilidade.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:40








comentários recentes



links

coisas à mão de semear

coisas prioritárias

coisas mesmo essenciais

outras coisas essenciais

coisas em viagem